"Dediquei-me especialmente à antiguidade, pois a nossa época sempre me repeliu, de tal forma que, não fosse o amor pelos que me são caros, eu teria preferido nascer em qualquer outra época que não a minha."
— Francesco Petrarca
As estátuas gregas e romanas eram pintadas. Cores vivas, quase berrantes — vermelhos, azuis, dourados. Quando os renascentistas as encontraram séculos depois, a tinta já tinha caído. E sobre esse acidente do tempo, construíram um ideal inteiro de civilização: pureza, harmonia no mármore branco. A Renascença, mirando no passado, acabou criando algo novo, ou uma "aberração" do passado, como queiram. Ninguém, em qualquer época, consegue escapar de idealizações, da mesma forma que aqui estamos, sejam os anos 90, anos 50, século XIX, Renascença ou até mesmo as primeiras civilizações, os sumérios com a época da caça e coleta.
Por bem ou por mal, as idealizações nunca correspondem à realidade concreta. A visão passa por uma lente distorcida, que engana os olhos de futuros observadores, que distorce como as coisas funcionavam, que faz desaparecer as dificuldades impostas, ou que faz desprezar o presente e futuro por um passado que provavelmente nunca existiu.
Por mais que pareça algo ruim essa fantasia, o que separa do ridículo é o êxito. Não parece de todo ruim, claro que tem as nuances de um "reacionarismo" — não de simplesmente copiar e colar, mas de resignificar, modelar para que se adapte ao tempo atual. Exemplo é a própria ideia de Renascença: de murais em vilas para suntuosas obras com técnicas diferentes, como a profundidade, por exemplo.
O que mais se vê por aí, ainda mais com a internet e suas sub-tribos e vários nichos, com suas nostalgias e idealizações, até mesmo aqui. A diferença entre o êxito e a "necromancia eletrônica" é poder resignificar. A saudade faz olhar para trás e suspirar. A idealização mais sólida pega esses elementos do passado, o que funciona, e constrói algo novo. Da ruína para a matéria-prima.